Morei fora e, agora, voltei para um país que não reconheço, com valores que não são os meus

Por Marcus Afonso*

 

Em 2012, deixei o Brasil para ir estudar em Londres por dois anos. Naquela época, o nosso país era uma promessa e eu queria estar bem preparado para aproveitar todo aquele potencial, além de contribuir com o meu país para um crescimento global. Por isso, fui buscar no Reino Unido um pouco daquela educação e cultura acadêmica que eles criaram ao longo de sua história.

Dividindo uma sala de aula com estudantes de mais de 30 nacionalidades, lembro o quanto eu era demandado pelos meus colegas com perguntas sobre o país, que unia tanta evolução com tanta beleza natural. O que ilustrou uma das primeiras aulas que eu tive, de Relações Públicas, foi a capa da The Economist com o Cristo Redentor decolando. Não poderia haver orgulho maior para um carioca que havia sido criado com o temor da violência e sob um título de país subdesenvolvido.

Com o passar do tempo, vi que levaria do Reino Unido muito mais que as teorias do mestrado que tinha ido buscar. O dia-a-dia britânico foi me ensinando muito, não pela sua sofisticação e requinte, mas justamente por sua simplicidade. Aliás, o glamour daquele país estava exatamente nisso: em permitir a todos a mesma qualidade de vida a que a “elite” tem acesso.

Como estudante, assim como cidadãos de diversas classes sociais, eu me deslocava pela cidade no mesmo metrô que o Primeiro Ministro David Cameron usava para ir trabalhar. Kate Middleton estampava a capa das revistas com o mesmo vestido que a minha esposa havia comprado em uma loja popular do país. O filho do príncipe William nascia no mesmo hospital no qual nós éramos atendidos pelo NHS, o sistema público de saúde. Definitivamente, aquilo sim era luxo!

Em 2013, no meu segundo ano por lá, vi a imagem do Brasil, infelizmente, começar a desmoronar. No mesmo dia em que fiquei surpreso ao receber uma carta do sistema de transporte público londrino informando sobre o investimento que estavam fazendo em novos ônibus, assisti à primeira manifestação contra o aumento da tarifa do transporte público no Brasil. A passagem ia aumentar, mas o conforto e a segurança iriam continuar precários.

A mesma The Economist, que tinha me gerado tanto orgulho, já mostrava que aquele Cristo Redentor decolando tinha sido apenas um sonho.

O próprio real já simbolizava esta queda e, assim que terminei o curso, voltei para o Brasil, pois a drástica desvalorização da nossa moeda estava deixando aquele custo de vida insustentável.

Ao chegar aqui, senti todo o choque cultural que não senti ao me mudar daqui para Londres. Voltei para um país que eu não reconheço, com valores que não são meus. Como publicitário, comecei a reparar na quantidade de vezes que via a palavra “exclusivo” nas peças publicitárias que ilustravam as principais mídias. Impressionante como aquilo gerava tanto valor para as marcas e produtos — e era tão antagônico aos valores que passei a apreciar ainda mais morando em Londres, tais como inclusão e coletividade.

Ao retornar ao ambiente de trabalho, vi como isso se confirmava. Os carrões que encontrei no estacionamento do escritório não condiziam com os cargos e salários dos meus colegas, mas eles traziam um status que parecia ser fundamental para as suas posições na empresa.

Por outro lado, todo aquele investimento que as pessoas faziam em um bem que iria apenas se desvalorizar, não era feito para bens muito mais valiosos. Por exemplo, no Reino Unido é muito comum que as mães dediquem um ano exclusivamente ao seu filho e tem até quem prefira começar a trabalhar por meio período para poder se dedicar a eles. Aqui no Brasil, vi que isso não é muito bem aceito e presenciei muitas mulheres entregando seus bebês de quatro meses aos cuidados de creches e babás e arcando com estes custos que eram quase equivalentes aos seus salários.

Brasil, como podemos deixar que os nossos valores sejam criados ou manipulados por modismos?

Aqui, no ambiente de trabalho, recrutadores estão em busca apenas de “líderes”, seja para a posição do estagiário ou do diretor.

Em todas as dinâmicas de grupo que participei, vi que se destacavam os que sabiam delegar e se impor, ainda que esta não fosse a função do candidato na empresa! As características analíticas ou de colaborativismo não eram sequer percebidas, até por não serem facilmente detectadas em apenas uma ou duas horas de um processo seletivo, mas não eram buscadas.

Definitivamente, não são estes valores que vou querer oferecer aos meu filhos. Quero que eles cresçam na liberdade de um parque com crianças que tenham culturas e histórias diferentes das deles — e não em um condomínio ou clube exclusivo e fechado onde tenham de ostentar determinadas marcas de roupas ou brinquedos para serem bem aceitos. Quero que eles deem às aulas de música ou de teatro o mesmo valor das aulas de matemática ou de inglês.

Quero que eles aprendam a liderar times ou projetos depois de terem contribuído de forma colaborativa para muitos deles — e não que já nasçam sabendo como fazer isso, pois eles não saberão valorizar o esforço de cada um que participa de todo o processo.

Uma das grandes lições que trouxe comigo daquele país acadêmico é a nossa capacidade de questionar e conflitar as teorias e mensagens que nos são passadas e não apenas aceitar passivamente a informação que teve mais destaque. Este é, sem dúvida, o primeiro passo para a nossa constante evolução, que deve estar sempre embasada nos nossos verdadeiros valores.

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Marcus Afonso, 29, é publicitário formado pela ESPM e acaba de retornar de um mestrado em Marketing pela University of Westminster. Carioca, economista, mora em São Paulo.

Texto originalmente publicado em Projeto Draft.

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